A ADUFU – Seção Sindical vem a público manifestar seu mais firme e inequívoco repúdio à presença do deputado federal Nikolas Ferreira na cidade de Uberlândia e, em particular, nas dependências da Universidade Federal de Uberlândia, por ocasião da atividade vinculada à inauguração do Hospital do Câncer associado à instituição. Não se trata de um episódio protocolar ou de uma circunstância meramente administrativa no âmbito das relações institucionais. Ao contrário, trata-se de um acontecimento que carrega profundo significado político e simbólico, na medida em que envolve a presença, no interior de uma universidade pública, de um agente político cuja trajetória parlamentar e atuação pública têm sido reiteradamente marcadas por posicionamentos contrários às políticas públicas estruturantes que sustentam o direito social à educação e à saúde no Brasil.
As universidades públicas brasileiras são espaços físicos destinados ao ensino, à pesquisa e à extensão. Elas constituem instituições históricas, edificadas ao longo de décadas a partir do esforço coletivo da sociedade brasileira, financiadas com recursos públicos e comprometidas com a produção de conhecimento, a formação crítica e a promoção do desenvolvimento social. Seus muros, portanto, carregam consigo a memória de lutas, de resistências e de projetos civilizatórios orientados pela ampliação de direitos e pela democratização do saber.
É precisamente por essa razão que causa profunda perplexidade a recepção por parte da administração superior, no interior desse espaço, de um parlamentar que reiteradamente se posiciona contra a universidade pública, que frequentemente se associa a discursos que deslegitimam a produção científica e que, no âmbito do debate público, tem se colocado ao lado de agendas políticas comprometidas com a redução do papel do Estado na garantia de direitos sociais fundamentais. Diante desse cenário, impõe-se uma indagação incontornável: a quem interessa a presença de Nikolas Ferreira nas dependências da Universidade Federal de Uberlândia, especialmente em um evento que mobiliza uma instituição cuja existência depende justamente da valorização da ciência, da educação pública e das políticas sociais?
A situação torna-se ainda mais grave quando se considera a presença, no mesmo evento, do vice-governador do estado de Minas Gerais, Mateus Simões, representante direto de um governo estadual cuja orientação político-econômica tem sido marcada pela defesa sistemática de políticas de austeridade fiscal, privatização e retração do papel do Estado na provisão de serviços públicos essenciais. Tais diretrizes, amplamente documentadas no cenário político contemporâneo, têm impactos diretos e profundos sobre áreas estratégicas como educação, ciência, tecnologia e saúde pública. Nesse contexto, não se pode ignorar o significado político que assume a convergência, em um mesmo espaço institucional, de representantes de projetos que, na prática, têm contribuído para o enfraquecimento das estruturas públicas responsáveis pela garantia de direitos fundamentais à população.
Também lLamentamos a participação do reitor da Universidade Federal de Uberlândia, Carlos Henrique de Carvalho, nesta atividade. É evidente que o exercício de funções de direção universitária impõe a necessidade de interlocução com diferentes esferas de poder e com múltiplos atores institucionais. A universidade pública, por sua própria natureza republicana, não se fecha ao diálogo com a sociedade e com as autoridades constituídas. Entretanto, a natureza específica deste episódio suscita questionamentos que não podem ser simplesmente ignorados. Tratou-se de uma atividade oficial da Universidade Federal de Uberlândia? O evento constava na agenda institucional da Reitoria? Em que termos se deu a participação da administração superior da universidade nessa atividade?
Tais perguntas não se configuram como meras formalidades administrativas. Elas dizem respeito, em última instância, à preservação da autonomia universitária e à responsabilidade institucional de zelar para que a universidade pública não seja convertida em palco para a legitimação simbólica de projetos políticos que se orientam justamente contra as bases materiais e institucionais que sustentam sua existência. Esse episódio, vale destacar, não pode ser analisado de maneira isolada, dissociado do contexto mais amplo de transformações que vêm atravessando o financiamento das universidades públicas brasileiras nas últimas décadas.
A imposição de mecanismos como o teto de gastos, instituído pela Emenda Constitucional nº 95, e sua posterior reconfiguração por meio do chamado arcabouço fiscal, instauraram no país um regime permanente de compressão das despesas públicas em áreas sociais estratégicas. No caso específico das universidades federais, tais dispositivos têm produzido efeitos concretos de estrangulamento orçamentário, comprometendo a capacidade das instituições de planejar suas atividades, manter sua infraestrutura e ampliar suas ações de ensino, pesquisa e extensão. Nesse cenário de restrição estrutural de recursos, as universidades públicas passam a ser progressivamente empurradas para uma condição profundamente problemática: a dependência crescente de emendas parlamentares como mecanismo de financiamento de iniciativas que deveriam ser sustentadas por dotações orçamentárias regulares, previsíveis e estáveis.
O resultado dessa dinâmica é a substituição de um modelo republicano de financiamento público, baseado no planejamento institucional e no compromisso coletivo com o desenvolvimento científico e social, por uma lógica fragmentada, marcada pela disputa por recursos contingentes, frequentemente vinculados a interesses políticos circunstanciais. Cria-se, assim, uma situação paradoxal e profundamente preocupante. Instituições responsáveis pela produção de conhecimento, pela formação de profissionais e pela prestação de serviços essenciais à sociedade passam a depender de gestos episódicos de parlamentares, convertendo-se, na prática, em suplicantes de recursos diante daqueles que deveriam, na verdade, garantir condições estruturais para seu funcionamento pleno. É necessário perguntar, com a franqueza que o momento exige: a quem interessa uma universidade pública fragilizada, submetida à instabilidade orçamentária e dependente de favores políticos para viabilizar suas atividades mais básicas?
É nesse contexto que a política de emendas parlamentares assume papel central no processo de desestruturação do financiamento público das universidades. Ao fragmentar o orçamento e ao deslocar decisões estruturais para o campo das negociações políticas pontuais, tal mecanismo enfraquece o planejamento institucional, compromete a autonomia universitária e subordina projetos estratégicos a dinâmicas de visibilidade e capitalização política. A universidade pública brasileira não pode ser convertida em palco de marketing político, em vitrine para projetos pessoais ou em moeda simbólica de valorização eleitoral. Hospitais universitários, centros de pesquisa, laboratórios científicos e programas de formação acadêmica não podem depender da lógica das concessões episódicas. Eles requerem políticas públicas estruturais, financiamento estável e compromisso permanente do Estado com a produção de conhecimento e com a garantia de direitos sociais.
Diante disso, a ADUFU – Seção Sindical reafirma sua defesa intransigente de um modelo de financiamento público das universidades federais que seja estável, suficiente e orientado por critérios republicanos de planejamento e interesse social. Reafirma, também, a necessidade de superação do atual modelo de dependência das emendas parlamentares como instrumento de sustentação de políticas estruturais, mecanismo que distorce prioridades públicas e fragiliza a autonomia das instituições.
Por fim, reiteramos que a UFU pertence à sociedade brasileira e deve permanecer comprometida com os valores que historicamente orientam a universidade pública: autonomia, produção científica, pensamento crítico, defesa dos direitos sociais e compromisso com o interesse público. A ADUFU seguirá vigilante diante de quaisquer tentativas de instrumentalização política da universidade e reafirma sua disposição permanente de lutar por uma educação pública, gratuita, laica, socialmente referenciada nas causas populares e adequadamente financiada.
ADUFU – Seção Sindical • Gestão Unificar as Lutas
Uberlândia, 13 de março de 2026.



