imprensa@adufu.org.br

Compartilhar

Zona da Mata em luto: quando a chuva revela o racismo ambiental em Minas Gerais

Inicialmente, a ADUFU se solidariza com toda a população da Zona da Mata Mineira, especialmente com as famílias das vítimas, nas cidades de Juiz de Fora e Ubá.

As fortes chuvas que atingiram a Zona da Mata mineira entre os dias 23 e 25 de fevereiro de 2026 deixaram pelo menos 64 mortos/as e 20 desaparecidos/as, segundo informações divulgadas pelo Corpo de Bombeiros Militar de Minas Gerais na noite desta quarta-feira, 25. As cidades de Juiz de Fora e Ubá concentram a maior parte das vítimas e dos danos causados por enchentes e deslizamentos de terra, além de milhares de pessoas desabrigadas ou deslocadas.

O acumulado de chuva em fevereiro em Juiz de Fora foi recorde histórico, ultrapassando mais que o dobro da média mensal esperada para o mês, o que intensificou o risco de deslizamentos em áreas inclinadas e adensadas por moradias precárias.

As equipes contam com cerca de 120 profissionais envolvidos/as nas operações de resgate e salvamento. A ação inclui busca por desaparecidos em áreas de deslizamento e monitoramento de possíveis novos riscos, especialmente com previsão de manutenção de chuvas na região.

Os desastres naturais levaram também à suspensão de serviços essenciais em vários bairros, interrupção de energia e abastecimento de água, além da instalação de abrigos temporários para centenas de famílias afetadas.

A tragédia anunciada e o racismo ambiental

Por décadas, o jornalismo aprendeu a narrar tragédias climáticas como se fossem acidentes inevitáveis, frutos de um capricho da natureza. Mas já não é possível, nem honesto, repetir esse enquadramento diante do que se vê, mais uma vez, na Zona da Mata mineira. As chuvas intensas do último período deixaram um rastro de morte, destruição e desaparecimentos. Não se trata apenas de um desastre natural. Trata-se de uma tragédia social anunciada.

A pergunta que precisa ser feita é direta e incômoda: quem morre quando a chuva cai com força? A resposta, infelizmente, se repete com crueldade estatística. Morrem os pobres. Morrem os/as negros/as. Morrem aqueles/as empurrados/as historicamente para as encostas instáveis, para as margens de rios assoreados, para áreas sem drenagem, sem saneamento, sem política pública contínua de prevenção. É isso que se chama de racismo ambiental.

Racismo ambiental não é um conceito abstrato nem um jargão acadêmico distante da realidade. Ele descreve uma prática concreta do Estado e da sociedade: a distribuição desigual dos riscos ambientais, que recaem sistematicamente sobre populações vulnerabilizadas por classe e raça. Quando bairros periféricos alagam primeiro, quando morros desabam sobre casas precárias, quando sirenes não tocam e obras de contenção nunca chegam, o que está em jogo não é apenas o clima, é a política.

Na Zona da Mata, as chuvas apenas expuseram o que já estava à vista. Municípios com histórico de enchentes, deslizamentos recorrentes e moradias irregulares continuam abandonados à própria sorte. Não por falta de conhecimento técnico, mas por escolha política. Prevenir custa dinheiro, planejamento e compromisso. Remediar, quando possível, custa vidas.

A responsabilidade do governo Zema em meio à crise

A responsabilidade do governo estadual não pode ser relativizada. O governador Romeu Zema precisa ser citado não como espectador, mas como agente desse cenário. Em apenas dois anos, o orçamento destinado à prevenção de impactos das chuvas em Minas Gerais foi drasticamente reduzido: de 135 milhões para irrisórios 6 milhões de reais, segundo dados divulgados pelo Mídia Ninja. Trata-se de um corte que não é neutro. Ele tem endereço, cor e classe social.

Reduzir investimentos em prevenção significa aceitar, de forma tácita, que algumas vidas são descartáveis. Significa governar com a lógica de que a morte dos mais pobres é um dano colateral administrável. É impossível dissociar essa decisão orçamentária das imagens de famílias soterradas, de corpos retirados da lama, de comunidades inteiras em choque. Não foi a chuva que matou sozinha. A austeridade matou junto.

É preciso dizer com todas as letras: o Estado falhou. Falhou ao não proteger, ao não investir, ao não planejar. Falhou ao tratar a emergência climática como um problema distante, quando ela já se manifesta de forma brutal e cotidiana. E falha novamente quando, após a tragédia, limita-se a discursos protocolares de solidariedade, sem autocrítica e sem mudança estrutural.

O apoio da ADUFU

Diante desse cenário, a ADUFU – Seção Sindical entende que a solidariedade concreta é urgente, ainda que insuficiente para reparar tamanha perda. Por isso, informa que realizou a doação de R$ 5.000,00, valor que foi transferido para a APESJF – Seção Sindical do ANDES-SN, entidade que representa as e os docentes da Universidade Federal de Juiz de Fora, diretamente inserida na região atingida e em articulação com ações de apoio às vítimas.

Mas nenhuma doação substitui políticas públicas consistentes. Nenhuma ajuda emergencial compensa o abandono histórico. Enquanto o racismo ambiental seguir estruturando as decisões do poder público, novas chuvas virão e novos nomes serão acrescentados à lista dos que morreram “por causa do clima”. Não por acaso. Por escolha.