Estarrecidas e estarrecidos, assistimos às cenas de guerra que tomaram conta do Rio de Janeiro no dia 28 de outubro de 2025. Sob o nome cínico de “operação Contenção”, o governo Cláudio Castro transformou as comunidades da Penha e do Alemão em campos de extermínio. A chacina, tratada como “operação de sucesso” pelo governador, revela o que há de mais brutal na máquina estatal brasileira: a necropolítica, o poder de decidir quem pode viver e quem deve morrer.
Achille Mbembe nos ensina que a necropolítica é a face sombria do atual Estado, o dispositivo que escolhe quais vidas são protegidas e quais são descartáveis. No Brasil, o mapa dessa morte tem cor, tem classe, tem território. São os corpos negros, favelados, empobrecidos, as juventudes que insistem em viver apesar da mira policial, que o Estado escolhe eliminar. E, quando não mata de bala, mata de fome, de falta de saneamento, de abandono, de silêncio.
A cada incursão militarizada em comunidades populares, o Estado reafirma sua incapacidade — ou sua recusa — em garantir segurança, cidadania e dignidade. As operações interrompem a vida: escolas fecham, unidades de saúde suspendem atendimentos, famílias se trancam em casa temendo o disparo que não escolhe destino. O medo torna-se rotina; o terror, política de Estado.
Enquanto isso, o mesmo governador que celebra a morte de seus cidadãos age contra medidas de proteção à vida, como a PEC 18/2025 da segurança pública e a ADPF das Favelas. No mês de setembro, enviou à ALERJ o projeto da “Gratificação Faroeste”, aprovado pela maioria de sua base, premiando policiais pelo número de mortes em confronto: a institucionalização da barbárie. Só o clamor das ruas e a resistência popular conseguiram frear, ainda que temporariamente, mais esse gesto de desprezo pela vida.
O massacre da Penha e do Alemão não é um desvio: é a expressão mais acabada de um projeto político que transforma a morte em política pública. Um governo que celebra o sangue derramado de seu povo não é governo, é máquina de extermínio.
A ADUFU – Seção Sindical, gestão Unificar as Lutas, se solidariza profundamente com as famílias dilaceradas pela perda, com o povo negro e trabalhador que carrega há séculos o peso da violência de Estado. Denunciamos e repudiamos, com toda veemência, as ações do governador Cláudio Castro e exigimos investigação rigorosa, responsabilização dos agentes e a interrupção imediata dessa política de morte.
Reafirmamos nosso compromisso com a defesa da vida, da dignidade humana e da justiça social. Que nossas vozes ecoem como memória e resistência diante da barbárie. Que nenhum nome, nenhuma história, nenhuma vida seja esquecida.
Porque enquanto o Estado decide quem deve morrer, nós, organizadas e organizados na luta sindical, seguimos reivindicando e buscando um país onde todas e todos possam, enfim, viver.



