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Médica e professora da UFU, Helena Paro, é homenageada com Comenda Augusto César

19/09/2021

por Isley Borges


Helena Paro é médica obstetra, professora da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e sindicalizada na ADUFU - Seção Sindical. É coordenadora geral do Núcleo de Atenção Integral a Vítimas de Agressão Sexual (Nuavidas), equipe multiprofissional que se uniu em meados de 2017, quando o Hospital de Clínicas (HC) da UFU recebeu recomendação do Ministério Público Federal (MPF) para estruturar o Serviço de Atenção às Pessoas em Situação de Violência Sexual.


O Nuavidas estruturou-se com o apoio de profissionais da Faculdade de Medicina (Famed), da Faculdade de Direito (Fadir) e do Escritório de Assessoria Jurídica Popular (Esajup), tendo a sua origem em um atendimento que Paro realizou a uma vítima de estupro em uma Unidade Básica de Saúde. A rede atualmente é composta por ginecologistas, pediatras, enfermeiras, psicólogas, assistentes sociais e advogados e atende vítimas de violência sexual para acompanhamento, tratamento físico e psíquico e interrupção legal de gravidez. Os serviços são oferecidos de modo gratuito no Ambulatório de Ginecologia e Obstetrícia do HC-UFU. 


A atuação necessária e importante de Paro frente ao grupo Nuavidas incomoda conservadores religiosos e reacionários, uma vez que os temas em torno da violência sexual, como o aborto legal, por exemplo, dividem opiniões e não são tratados de maneira aprofundada e compreensiva. No dia 02 de junho, um vereador de Uberlândia, que se declara como total apoiador do governo Bolsonaro e tem como pautas de seu mandato os valores cristãos e conservadores, nomeou Paro como "médica abortista da UFU" e propôs uma moção de repúdio contra o trabalho da médica.


Em reconhecimento ao trabalho do Nuavidas e em resposta aos ataques mentirosos do vereador, o mandato da vereadora Cláudia Guerra (PDT), em 28 de agosto, entregou à Paro a comenda Augusto César, a mais importante do município, em reconhecimento e respeito ao seu trabalho com vítimas de violência sexual. A médica Helena Paro concedeu entrevista à ADUFU sobre tais acontecimentos:


A - A senhora é professora e médica ginecologista/obstetra e, por causa de sua formação e experiência profissional, compreende com propriedade temas relacionados à sexualidade feminina e agressão sexual de mulheres. Recentemente, um vereador da cidade a classificou de "médica abortista da UFU". Como a senhora encarou este desrespeito?


HP - Eu escolhi como profissão a medicina e a obstetrícia e isso significa que o meu dever ético e profissional é cuidar da vida de meninas e mulheres brasileiras. Diante dessas vidas, o aborto é um fato, e eu estou tratando do aborto no caso da violência sexual e, muitas vezes, ele pode significar vida ou morte para as mulheres. Elas chegam ao nosso atendimento sem esperanças. E ao saberem que podem ser cuidadas, acolhidas e terem as suas vidas resgatadas, que podem pensar no futuro, está cumprida a minha função. Não tenho nada a dizer para quem nada compreende da beleza da minha profissão, que exerço com muito amor.


A - Na sua opinião, por que tratar do tema da violência sexual contra mulheres desperta tantos ataques por parte dos conservadores e fundamentalistas religiosos? Isto seria resultado de um processo de quebra de tabus?


HP - A violência contra a mulher faz parte do sistema patriarcal, que opera para que as mulheres sejam submissas e não possam exercer as suas potencialidades, nas esferas econômica, intelectual, dentre outras. Antes, essa violência era encarada com distanciamento, como um fato no qual as pessoas não deveriam “meter a colher”. A vereadora Cláudia Guerra, que me homenageou com a Comenda, diz sempre que nós precisamos “meter a colher” nessas violências. O tema, portanto, desperta esses ataques porque a prevenção da violência contra as mulheres traz a possibilidade do que nós almejamos em um mundo mais sustentável, com equidade de gênero. Então, falar e prevenir essa violência pode afetar os poderes dos conservadores e fundamentalistas.


A - Ao mesmo tempo em que é desrespeitada por um vereador, a senhora recebeu a Comenda Augusto César, a mais importante do município, pelas mãos de uma vereadora. Este fato poderia expressar a complexidade da nossa democracia?


HP - Eu não acho que este fato represente a complexidade da nossa democracia. Isso representa o que vivenciamos hoje em nossa sociedade: disseminação de mentiras, de notícias falsas, de pessoas sensacionalistas que desprezam o conhecimento científico. Não estamos falando de uma complexidade de pontos de vista, mas de falas que me atacam e atacam uma grande equipe profissional sem fundamento científico. Mesmo diante dessas reações, o Nuavidas continua prestando um serviço de excelência para Uberlândia e região contribuindo significativamente para a comunidade acadêmica da UFU, formando profissionais de saúde, psicólogos, médicos, enfermeiros, assistentes sociais, sensíveis e capacitados para prevenir, acolher e tratar pessoas em situação de violência sexual.



Helena Paro recebe a Comenda Augusto César das mãos da vereadora Cláudia Guerra. Fonte: Acervo do gabinete da vereadora.