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ADUFU oferece curso de autodefesa para mulheres

24/10/2018

A violência machista tem várias faces. Em casa, no trabalho ou nos espaços públicos mulheres sofrem constantemente os efeitos de uma cultura que ainda violenta fisicamente, sexualmente, psicologicamente, financeiramente e simbolicamente. 
A cada 11 minutos uma mulher é estuprada no Brasil. A cada 7 segundos uma mulher é vítima de violência física. Entre as mulheres que foram violentadas no ano passado, 52% se calaram, apenas 11% procuraram uma delegacia da mulher. Os casos de feminicídios cresceram drasticamente entre 1980 e 2010, tendo um percentual de 230%, triplicando o quantitativo de mulheres vítimas de assassinato no país.

Dados como os apresentados acima revelam a urgência de discutir e apresentar propostas para combater este problema. Neste sentido, a atual gestão da ADUFU-SS,  “Resistir e Lutar”,  acolheu a proposta apresentada pelo professor sindicalizado, Guilherme Amaral Luz por meio Programa de Extensão “SOMA: Ações Transdisciplinares” (PROEXC/UFU)e a Federação Mineira de Kung Fu Kuoshu (FMKK) para que fosse ofertado, na sede da Seção Sindical, um curso especial focado em estratégias de autodefesa para mulheres contra agressões físicas masculinas.


O curso, gratuito, teve início no dia 21 de agosto e aconteceu até o dia 23 de outubro. As professoras da UFU tiveram preferência no preenchimento das 14 vagas. As aulas aconteceram às terças-feiras, das 17h30 às 18h45, e foram ministradas pelo professor Guilherme, do Instituto de História da UFU, que é faixa preta de Kung Fu Kuoshu, instrutor de Qi Gong; praticante de Tai Chi Chuan da Família Yang e ex-praticante de Karatê (estilos Shotokan e Kenyu-Ryu). Três professoras de  artes marciais diferentes, Tai Chi Chuan, Kung Fu e Karatê, que atuam na cidade, também foram convidadas para ministrarem oficinas específicas no curso: professoras Sara Giffoni, Andressa Izabel e Adéli.

Este curso pretendeu oportunizar o desenvolvimento de algumas habilidades e estratégias básicas para que pessoas supostamente mais frágeis fisicamente consigam se proteger contra agressores aparentemente mais fortes. Seu público alvo foram mulheres, pessoas que, pela simples condição de serem de um sexo específico, tornam-se potencialmente vítimas de agressores masculinos que se supõem mais fortes, mais corajosos e, por isso, poderosos em relação ao “sexo frágil”.

A construção do projeto parte do pressuposto que artes marciais são capazes de duas coisas: aflorar a compreensão feminina de que as mulheres são sim capazes de se defender contra a violência física de um homem e, ao mesmo tempo, conseguem fornecer instrumentos eficazes e relativamente seguros de resistir à violência física em si. Elas conseguem, portanto, ajudar as mulheres duplamente, pois desmontam os estereótipos que a rebaixam simbolicamente como o “sexo frágil” e dão instrumentos a elas para que, em caso de necessidade, defendam-se contra abusadores masculinos.

De acordo com o professor Guilherme, o uso de artes marciais, hoje em dia, como método de defesa pessoal é bastante limitado, considerando a natureza da maioria dos crimes violentos que ocorrem nas grandes cidades. O uso de armas, sobretudo de armas de fogo, torna qualquer tipo de reação extremamente perigosa, potencialmente letal para quem busca se defender de um agressor disposto a matar. “Por mais que um indivíduo seja proficiente em uma arte marcial, a reação em um assalto à mão armada, por exemplo, é muito mais um fator que aumenta o risco de fatalidade do que um modo de autodefesa. Por outro lado, há exceções. Algumas formas de agressão, infelizmente ainda muito frequentes, podem ser contidas com o uso de habilidades e inteligências marciais. É o caso das agressões a mulheres, tais como os atos de violência doméstica, sexual ou, de modo mais genérico, patriarcal,” explica Amaral Luz.

A melhor forma de conter tais atos de violência é a sua prevenção; isto é: o combate à misoginia, ao sexismo, à cultura machista. Analogamente, ocorre algo similar com a população LGBT, exposta ao ódio de gênero, que não raramente chega às vias de fato da agressão e do assassinato.

A metodologia não foi escolhida com a pretensão de ensinar uma arte marcial específica, nem técnicas de luta (como aquelas que se vêm em competições tradicionais ou de MMA). Mas sim, estudar algumas situações corriqueiras de violência e suas possíveis saídas, partindo de princípios e técnicas de artes marciais.

Foram privilegiadas as técnicas simples, de fácil execução por parte de quem tem pouca experiência com artes marciais, e que não dependam de muita força muscular para a sua execução. O foco é o autoconhecimento como meio de desenvolver as próprias estratégias e técnicas defensivas de cada pessoa singular e o improviso como forma de inteligência circunstancial decisiva na hora de enfrentar uma situação adversa.

Foram trabalhadas também as dimensões mental e emocional, que constituem aspectos fundamentais da autodefesa, tanto da prevenção às agressões quanto da boa execução das ações defensivas.

Para participar do curso não tiveram pré-requistos em relação à faixa etária, ou condições físicas específicas. As alunas foram orientadas a proceder uma avaliação física com profissional da saúde antes do início das atividades.




Para a participante Mariza Barbosa, professora da ESEBA, o curso foi bastante interessante porque foi desenvolvido para um grupo de mulheres com o fim específico da autodefesa. “Não tenho certeza de que ao final do curso estamos preparadas para nos defender de uma suposta agressão, até porque o trabalho de consciência corporal e reflexo leva tempo e muito treino para serem alcançados. No entanto, estou certa de que em caso de sofremos violência temos esta possibilidade de ação, temos mais clareza a respeito de alguns movimentos de autodefesa e também sabemos identificar alguns pontos fracos que qualquer agressor possui”, explica Mariza.

O curso despertou mais uma possibilidade para o empoderamento feminino, a possibilidade de perceber as potencialidades de nossos próprios corpos, desmistificando essa ideia de que a mulher é mais fraca fisicamente do que os homens em geral.

 

As participantes também preencheram um questionário com perguntas sobre hábitos de saúde e cuidados com o corpo; percepção da violência de gênero; intuição prévia sobre autodefesa e sobre expectativas em relação ao curso. A tabulação desse questionário resultou nas seguintes considerações gerais: “Em média, os formulários preenchidos demonstram uma consciência muito apurada dos riscos vividos pelas mulheres na sociedade brasileira atual, em particular, na cidade de Uberlândia. São majoritariamente mulheres adultas, com bons hábitos de saúde e de consciência corporal relativamente boa. Há boas intuições quanto a práticas adequadas de prevenção e defesa contra agressões, porém, em maior parte, pouco conhecimento técnico de artes marciais ou de lutas. As expectativas em relação ao conteúdo do curso dão mais ênfase às técnicas de defesa em si e ao preparo corporal-mental. Apenas em menor grau, percebem-se expectativas ligadas ao cuidado preventivo e ao treinamento interno.”

Guilherme conta que a concepção deste curso é inspirada em atividades desenvolvidas no interior do projeto de extensão “Corporalidades, Diálogo e Acolhimento: ações contra violências”, desenvolvido pelo grupo “Sexualidade, Direito e Democracia”, da Faculdade de Direito da Universidade Federal Fluminense, em Niterói-RJ. “Agradecemos ao professor de Kung Fu (estilo Garra de Águia da Linhagem Lily Lau), Gabriel Guarino de Almeida, participante daquele projeto na qualidade de instrutor, por disponibilizar o material referente às atividades realizadas e por dividir um pouco da sua experiência conosco,” afirma o professor.   

Condições físicas que exigem cuidados especiais, tais como qualquer tipo de deficiência, lesão ou enfermidade relevante para o desempenho de atividades corporais são levadas em conta de tal modo que a atividade não acarrete em qualquer risco à saúde ou integridade das participantes.

As atividades do curso são de intensidade leve ou moderada e de caráter bastante seguro. As técnicas são demonstradas e ensinadas com todo o cuidado para que não ocorram acidentes.