ADUFU - Seção Sindical do ANDES
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Sobre o fim e a ilegalidade da greve

01/06/2010

Sobre o fim e a ilegalidade da greve
 
Antonio Bosco de Lima (Professor na UFU) [1]
 
Chega ao fim uma greve que perdurou por quarenta e seis dias. Um das razões foi ter sido considerada ilegal, o que “queima o movimento” diante da sociedade e induz ao sindicato um castigo que o desmobiliza politicamente, pois o inviabiliza economicamente.
Pois bem, o que é ilegal? Ilegal, em primeiro lugar é o salário aviltante dos professores do Brasil e em particular dos professores da rede pública estadual de MG (um dos piores dentre os Estados mais ricos), Ilegal são as condições de trabalho desses mesmos professores que fazem duas ou mais jornadas para poderem sobreviver. Ilegal, ainda, é aceitar que os alunos vão para a escola devido à merenda e porque os pais não têm onde deixá-los. O poder público (executivo, judiciário e legislativo) e a imprensa deveriam considerar esta situação calamitosa ilegal, criminalizando-a.
Pois é ilegal também não considerar que a escola deveria ser mais legal para os seus alunos e que os professores estivessem felizes com o seu trabalho e que não fossem para a escola para também merendar. Sim, senhores, muitos professores também vão para a escola para participar da merenda.
Vamos constar na lista de ilegalidades que é ilegal um governo fazer propaganda para incentivar nossos jovens a ingressar em uma profissão, que, embora a principal de um país, condena nossos jovens a uma vida profissional muito breve: a média de atuação de um professor no Brasil não chega a quinze anos de atividade produtiva. Isto é ilegal: “nunca na historia deste país”  vimos propaganda para o incentivo de qualquer outra profissão. Acontece que ser professor hoje não é atrativo, nem econômico, tampouco de status profissional.
Ilegal é investir em armamentos, em segurança, em construção de penitenciárias, em importação de tecnologias, quando o nosso pátio de intelectualidade não é inflada, não sofre incrementos e financiamentos suficientes para que o alicerce intelectual de uma sociedade, que deveria ser a escola, em seu modelo formal de educação, seja potencializada a ponto de, nas próximas décadas tornarmos este, um país realmente autônomo, como ocorreu com vários países que saíram de uma situação de emergência e agora situam-se como desenvolvidos.
Ilegal, senhores e senhoras é o exercício do podre poder. Senhores deputados, senhores juízes, senhores governadores, ilegal é manter a situação educacional brasileira como uma das piores da América Latina. 
Ilegal é voltar para o ambiente de trabalho e encontrar colegas envergonhados por não terem aderido a um processo reivindicatório coletivo por medo do diretor, por medo de perder a aposentadoria, por medo de não gozar suas férias de meio de ano.
Quanta ilegalidade! E, somente uma sendo divulgada. A justa reivindicação de professores e professoras por condições objetivas dignas de trabalho para ser desmobilizada torna-se ilegal. É preciso legalizar a defesa por um salário compatível a uma profissão que exige muito do ser humano: bom humor, criatividade, sobriedade, seriedade, compromisso político, solidariedade com o outro, paciência.
Que exige do marido ou da esposa de professores um ligamento emocional, intelectual e uma imensurável dedicação que invade os seus lares. Que exige dos filhos destes professores que os finais de semana sejam divididos, entre o lazer, a companhia familiar e o corrigir provas, preparar aulas, enfim, preocupações com os filhos dos outros: os alunos.
Paremos por aqui, pois este não é um texto legal!

[1] Foi professor e diretor em escolas da rede pública estadual de São Paulo.