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GREVE, UM DIREITO CONSTITUCIONAL

27/10/2016

GREVE, UM DIREITO CONSTITUCIONAL

O senhor Dutra resolveu publicar sua opinião sobre a greve recentemente deflagrada na UFU, enviando uma carta ao Correio (Jornal Correio). Sua intenção é acusar a greve de ter motivação ideológica. Que problema há, Sr. Dutra, no fato de uma greve ser ideológica? Absurdo seria se não o fosse.

Ser ideológico significa apresentar um conjunto de ideias e princípios com que se pretende explicar, descrever e justificar um sistema político de uma sociedade, vigente ou a vigorar. Todos os nossos atos sociais são ideológicos. Ser ideológico não é crime. É ser crítico. E acreditar numa determinada concepção de sociedade preferencialmente justa.

A carta do Sr. Dutra é francamente ideológica. Dela, emana uma concepção de sociedade autoritária – como se a sociedade fosse um quartel. Diante de qualquer crise, sua reação é pela reprimenda, pela repressão, pela punição dos que lutam por um projeto nacional inclusivo e igualitário.

Após quatro séculos dominando a escravaria e mais um explorando seus empregados, boa parte da classe dominante brasileira tem grande dificuldade de lidar com o questionamento de sua ideologia conservadora e elitista. Não estão acostumados a ser contrariados. Acreditam que o povo deve obedecer ao governo e pronto! Em seu projeto de nação, nem moderna, nem democrática, nem republicana, a casa-grande não inclui a senzala e a periferia.


Mas a democracia é o governo do povo. Dele emana e em seu nome será exercido. Não é assim que se escreveu na constituição? Então, é o governo que deve ouvir o povo, para saber que ideologia a sociedade quer ver valorizada. Para isto serviriam as eleições, se houvesse debate sobre projetos políticos, se fossem mais que um engodo eleitoreiro, dada incúria de muitos candidatos e eleitores. E, juntos, governo e povo devemos obedecer à constituição.


Fazer greve não é crime. Quando diz que quer a regulamentação do direito de greve, o Sr. Dutra certamente está pensando em normas que criminalizem as greves. Quando pede ao governo que corte nossos salários, o Sr. Dutra está, apenas, alimentando suas pulsões punitivas e bárbaras.


A UFU está em greve porque se reconhece como um patrimônio cultural estimável da cidade e do país e porque não quer se deixar dilapidar, transformando-se numa universidade privada qualquer, destas que demitem professores e fecham cursos a todo momento, sem formar massa crítica, ao sabor das benesses do mercado. Queremos que o dinheiro que o brasileiro paga em imposto seja usado para financiar uma educação de qualidade, oferecida ao nosso povo sem a cobrança de mensalidade, em vez de ir para a mão de empresários que comercializam com a educação ou, pior, para o ralo da corrupção.

 

Eduardo José Tollendal
Professor UFU
edutollendal@gmail.com