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ARTIGO - “Análise de conjuntura” ou determinismo politicista?

01/09/2011

“Análise de conjuntura” ou determinismo politicista?
Edilson José Graciolli[1]
 
            Diz a sabedoria popular que consente aquele que cala. Manifesto-me aqui para pontuar algumas das divergências que tenho com o texto do professor Paulo Gomes, postado neste portal, mas que, originalmente, foi escrito como mensagem eletrônica na lista de sua corrente (ANDES-AD) no sindicato.
            Até outro dia, alguns diziam que a conjuntura era de grande insatisfação da categoria docente com o estado de coisas em que estava inserida e que o potencial para uma greve era enorme. Quando apareceram as sinalizações de que isso não procedia, pelo menos no que se refere à disposição para essa importante forma de resistência (greve), houve muita dificuldade por parte desses colegas em enfrentar números e questões que remetiam a outras dimensões (como o esgotamento da legitimidade da política do ANDES, a externalidade da chamada “jornada nacional de lutas”) sobre os motivos pelos quais a paralisação dos dias 23 e 24 ficou muito aquém do pretendido.
            Neste artigo, pretendo comentar dois aspectos presentes na contribuição citada, a da forma como se vê a conjuntura e a do balanço que se fez da greve de 2001, ambos reveladores das diferenças de fundo em termos de concepção política.
            O texto mencionado anuncia que contém uma “... apreciação sobre a assinatura do acordo pelo ANDES-SN com o governo a partir de análise de conjuntura” (grifos meus) e, na sequência, afirma que “... mundialmente mudou a conjuntura, há ascenço [sic] do movimento de massas”. Tenho a comentar acerca disto o seguinte:
  1. Mesmo que se possa apreciar a assinatura de um acordo feito neste cantinho do mundo a partir de uma dada conjuntura mundial, as mediações analíticas precisariam estar presentes, sob pena de, do ponto de vista epistemológico, as abstrações não serem nada razoáveis. Tal me parece ser o equívoco de fundo: de um suposto movimento de massas em crescimento, busca-se a intelecção do aqui e agora, numa clara revelação de que se acredita que as teses gerais tudo explicam, sendo aplicadas em quaisquer circunstâncias.
  2. Ver nas manifestações que vêm do oriente uma onda de lutas anticapitalistas e, mais do que isso, um potencial ou até mesmo uma efetividade na direção de algo como socialismo é, a meu ver, desconsiderar as inúmeras e importantes particularidades do que ocorre na Líbia e em tantos outros países, ou mesmo na Europa. Ditaduras quase dinásticas postas em questionamento prático, brutais desigualdades sociais e embates que também têm na religião um de seus elementos constitutivos não deveriam servir de argumento do tipo “a revolução está chegando”.
  3. Mesmo que admitíssemos a pertinência dessa tese, por qual razão estaríamos autorizados a avaliar que ela aqui se expressaria por uma greve de docentes ou que esta seria a contribuição ao incremento da onda referida?
Em um fragmento dos Cadernos do cárcere, Gramsci formulou uma reflexão que me parece lançar alguma luz sobre o sentido desse tipo de automatismo analítico:
Quando não se tem a iniciativa na luta, e a própria luta termina por identificar-se com uma série de derrotas, o determinismo mecânico transforma-se em uma formidável força de resistência moral, de coesão, de perseverança paciente e obstinada. “Eu descreio momentaneamente, mas a força das coisas trabalha por mim a longo prazo, etc”. A vontade real se disfarça em um ato de fé numa certa racionalidade da história, em uma forma empírica e primitiva de finalismo apaixonado, que surge como um substituto da predestinação, da providência, etc., das religiões confessionais. (GRAMSCI, A., Concepção dialética da história, 8 ed., Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1989, p. 23).
            Às vezes o determinismo mecânico, o finalismo apaixonado ou a crença que a força das coisas substitui o trabalho molecular de formação de uma verdadeira força política assume a configuração do economicismo, mas nada assegura que o politicismo não cumpra tal papel. Há uma década o ANDES-SN colhe derrotas atrás de derrotas e alguns se mantém coesos em suas pétreas estruturas, instâncias e concepções porque acreditam, piamente, que “venceremos!”. Não, não estamos condenados nem à derrota, nem à vitória. Uma ou outra depende não só de uma conjuntura, por si só passível de ser analisada de múltiplas formas, mas do que formos capazes de construir a partir de projetos, capacidade política e de aglutinação de forças e interesses. Não é, decididamente, o que se nos apresenta na presente conjuntura.
            O outro aspecto que quero destacar é, devo reconhecer, algo até aprazível. A última greve vitoriosa que tivemos, ainda que parcialmente (mas com conquistas importantes, tais como o engavetamento do “projeto de emprego público” e a consequente manutenção do RJU, a retomada dos concursos públicos para docentes, a concessão de reajuste salarial próximo a 15%) foi a de 2001. Mas essa greve foi como que vítima do que E.P. Thompson chama de “enquadramento da memória”, pois, no discurso de muitos, as greves de 2003 (contra a reforma da previdência) e outra (acho que de 2004, ou 2005) seriam os exemplos.
            Penso que cada momento e forma de resistência tem seus avanços, impasses e limites, mas não se pode negar que uma greve (a de 2001) que começou, no caso da UFU e de outras universidades, com 80% de adesão, aferidos por meio de relatos muito precisos e em assembleias com expressiva participação, que enfrentou dois meses de retenção salarial, que durou 108 dias e que revelou uma sinergia entre base e direções não pode ser “esquecida”. E nem se pode dizer que a conjuntura internacional, naquele momento, era de crescimento do capitalismo, ou de ausência de episódios reveladores do caráter destrutivo da ordem do capital (basta lembrar que a greve se iniciou em agosto de 2011 e, após quase um mês e meio sem que tivéssemos visibilidade na mídia, ocorreu simplesmente os atentados de 11 de setembro nos EUA, o que jogou para mais uns quinze dias a falta de cobertura da mídia sobre nosso movimento).
            O que explica, prezado professor Paulo Gomes, a envergadura daquela greve, não é a condução correta da direção do ANDES pela sua corrente ANDES-AD, embora não se possa negar que o presidente de então, professor Roberto Leher tivesse uma postura política elogiável, digna e de muita inteligência estratégica, bem como a maioria dos que estavam na diretoria nacional. Ao invés desse peso dado às direções (antiga tese que vem de um nome importante na revolução russa, Trotsky) quanto a acertos e erros, o que vivenciamos foi um movimento de ampla adesão, de participação ativa com assembleias quase que dia sim, dia não e de uma confiança nos dados. Tudo aquilo que, agora, não se vê naquilo que o ANDES tem de contribuição na conjuntura. Sim, este é outro ponto crucial para o presente momento: as análises de conjuntura que alguns setores fazem quase nunca veem o sindicato como parte dela. Por isso não conseguem reconhecer a falência do modo ANDES de fazer política.
            Grato pela atenção.
[1] Professor de Sociologia e Ciência Política do Incis/UFU.