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Artigo: O jeito ANDES-SN de construir greve

08/08/2011

O jeito ANDES-SN de construir greve
Prof. Edilson José Graciolli i
O último Conselho de Representantes de Associações de Docentes do ANDES-SN (56º Conad, instância em que cada seção sindical ou associação de docentes do ANDES-SN se faz representar por um/a delegado/a) deliberou por um cronograma que aponta “... para a categoria a necessidade da construção da greve” (cf. Informativo Semanal 377 da ADUFU-SS, de 05/08/2011). Pensar sobre tal horizonte, o de uma greve nas instituições federais de ensino superior (IFES) neste momento, e acerca das condições objetivas e subjetivas para que ela aconteça é o objetivo deste artigo.
 
Entre as várias características que uma greve pode assumir, uma primeira distinção dizrespeito à sua motivação de fundo, se num contexto revolucionário, ou se numa dimensão reivindicatória.
 
Existem no ANDES-SN insanidade e “autismo político” suficientes para que alguns vejam numa greve nas IFES a continuidade da suposta onda revolucionária que estaria a varrer o oriente, rumo ao socialismo, como se depreende da análise que o ANDES-SN tem feito, em congressos e Conads, reiterada na Carta de Maringá, da qual destaco este parágrafo a título de ilustração:
 
“O 56º CONAD registrou o aprofundamento da crise internacional, a partir das manifestações vigorosas dos trabalhadores, no mundo árabe e na Europa, por seus direitos, expressando o crescente inconformismo com os desmandos do capital na sua ação predatória. Essas ações evidenciam o movimento da classe trabalhadora que existe e se apresenta com uma dimensão qualitativamente diferente em seu alcance geográfico e político. As lutas contra ditadores, porsalários melhores, emprego, condições de trabalho, educação pública, direito à aposentadoria e à saúde, por democracia e contra a perda de direitos fundem lutas por necessidades imediatas com a imprescindível estratégia mundial de luta pelo socialismo. (http://portal.andes.org.br/imprensa/noticias/imp-pri-11372138.PDF).
 
A mendicância teórica e política desse tipo de “análise” é gritante e sobre ela não vale a pena perder tempo. Portanto, resta-nos esperança de que a indicação do 56º Conad para que se construa uma greve esteja também informada pela avaliação de que se faz necessária uma forma de pressão para que reivindicações dos docentes sejam, efetivamente, objeto de negociação com o governo. Será? Não é o que se deduz das ações feitas e anunciadas para a
 
Assim sendo, o que se vê não é uma articulação de greve dos docentes das IFES, mesmo que junto a outros segmentos dos assalariados de Estado (chamados de “servidores públicos federais”, expressão por si só eivada de vários significados, à direita e à esquerda, que deveriam ser problematizados), em relação à qual entidades, movimentos sociais e partidos políticos expressam apoio, ou, dentro de distinta postura política, crítica e oposição. Longe disto, o que se revela, de imediato, é uma agenda definida heteronomamente (CSP-Conlutas,braço atrofiado do inexpressivo PSTU no campo das centrais sindicais e popular), ou por umacombinação de tal heteronomia com as já desgastadas, esvaziadas e ineficazes instâncias do ANDES-SN.
 
Nada contra uma jornada de lutas, na qual a pauta específica de nossa categoria integrasse as bandeiras empunhadas. Temos, indubitavelmente, muito por que lutar: recuperação do poder aquisitivo dos salários e fim das gratificações, correção de distorções históricas e recentes na carreira docente, superação das múltiplas formas – velhas e novas – de precarização do trabalho e da própria qualidade do que se faz nas universidades e revisão da profunda contrarreforma universitária que se apóia em lutas historicamente defendidas pelo movimento docente (como a da ampliação do sistema público de ensino superior). Mas não édisto que se tratará na jornada de lutas mencionada e na greve que se pretende construir, aomenos se tivermos em conta o que PSTU, CSP-Conlutas e ANDES-SN têm desenvolvido como política.
 
As dificuldades para que uma greve dos docentes das IFES seja deflagrada a médioprazo – que dizer do curtíssimo prazo previsto no calendário do 56º Conad, divulgado pelo Informativo 377 da ADUFU-SS ... – são de várias naturezas.
 
Em primeiro lugar, uma longa desmobilização da categoria, sintoma da crescente perda de legitimidade e representatividade do próprio ANDES-SN e do distanciamento entre sua direção (entenda-se, para além da diretoria nacional, das instâncias deliberativas, como Congressos, Conads e assembleias gerais locais) e a base docente. Aliás, este deveria ser o grande ponto a se enfrentar nas análises de conjuntura do sindicato. No entanto, a miopia política do mesmo prefere fazer de conta que essa realidade não existe.
 
Da mesma maneira, uma greve, hoje, é muito mais difícil de ser preparada e realizada, se considerarmos os impactos na categoria docente dos vários modelos de financiamento das atividades de pesquisa, ensino e extensão em curso nas IFES, em geral formatados pela concepção de contratos de gestão, pela quebra da indissociabilidade entre essas atividades, pela quase inexistência de financiamento público, estável, permanente e suficiente das IFES e,finalmente, por toda uma cadeia de premiações que, na verdade, filtram, ideológica e politicamente, os que devem ser aplaudidos (vide sistema qualis, avaliações da CAPES, cultura do currículo Lattes e, no plano local, os editais para as “melhores” teses e dissertações).
 
Outra dificuldade diz respeito à pauta de reivindicações com que se pretende negociar. A pauta do ANDES-SN (montada nas mesmas instâncias desgastadas, esvaziadas e ineficientesaludidas) é quase quilométrica, absolutamente inadequada para pôr em movimento o que ainda resta de resistência organizada entre nós. Além do mais, quando se trabalha com o cenário de luta conjunta com os “servidores públicos federais (SPFs)”, esses obstáculos são acrescidos de muitos outros. O que pode haver de comum entre nós e a magistratura? O que haveria de tangência entre docentes e categorias que, pelo lugar que ocupam na alta burocracia estatal e na reprodução ampliada do capital, são muito mais estratégicas (algumasse mantém com o status de carreiras de Estado) do que a universidade? Negociações “gerais”,
mobilizações de todos os SPFs são bandeiras que interessam aos que, como PSTU e CSPConlutas, vêem o que não existe a partir de qualquer luta social pelo mundo, pegam carona para seus devaneios e pretendem dar vazão ao oportunismo de quem se acha detentor exclusivo da verdade.
 
Paro por aqui. Penso que, no caso da ADUFU-SS, outras matérias deveriam constituir nossa agenda, seja para reconstruir (refundar, quem sabe) a entidade na sua relação com os docentes, seja para sairmos dessa usina de devaneios chamada ANDES-SN.
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i Professor de Ciência Política e Sociologia do Instituto de Ciências Sociais (Incis) da UFU.