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ARTIGO - ANDES-SN: simulacro de democracia, terreno para o sectarismo e espaço para o aparelhamento político-partidário.

25/02/2011

ANDES-SN: simulacro de democracia, terreno para o sectarismo e espaço para o aparelhamento político-partidário.

 

Edilson José Graciollii

 

Escrevo em caráter estritamente pessoal, não sendo este texto, necessariamente, endossado por quaisquer integrantes da delegação da ADUFU-SS ao 30º Congresso do ANDES-SN ou por membros da atual Diretoria Executiva da ADUFU-SS.

Não é raro um movimento de idéias, um projeto, uma instituição ou uma proposta se converter em seu contrário, ou até mesmo contradizer, na essência, o que sugere a aparência. Entre o nome e a coisa, sempre se coloca a possibilidade de um fosso de enormes proporções.

 

Tal me parece ser o caso do ANDES-SN. Nascido sobre os pilares da democracia, da pluralidade, do compromisso acadêmico e da autonomia e liberdade sindicais, sua trajetória nos últimos anos (talvez desde 1998, mas, pelo menos, desde 2002) tem produzido um controle por parte de azeitadas direções e suas sustentações na militância em relação às instâncias e dinâmicas da vida sindical, abrindo crescente, e talvez irreversível, caminho para o sectarismo dos que julgam ser os únicos portadores “da verdade” e para o aparelhamento político-partidário.

 

O recém concluído 30º Congresso do ANDES-SN foi palco farto para quem queira se deparar com exemplos dessas tendências. Dos métodos aos conteúdos aprovados, das conduções das plenárias ao enfadonho ritmo das discussões (somente interrompido por uma ligeireza quando assim interessou à maioria circunstancial dentre os delegados), o que se viu foi um desfile de afronta a toda e qualquer proposta que fugisse, por mínimo que fosse, da sagrada cartilha que seguem a corrente Andes-AD (“autônoma e democrática”???!!!) e seus agregados, como os militantes do PSTU.

Senão vejamos.

 

A filiação à Central Sindical Popular (CSP)-Conlutas. Quem teve tempo e paciência para acompanhar essa trágica novela no movimento sindical, sabe que a Conlutas não logrou a condição de alternativa à CUT. Num louvável esforço para que se rearticulasse o chamado campo sindical classista, por fora da CUT (que, a rigor, se converteu em corrente de transmissão das políticas governistas), tentou-se, de 5 a 6 de junho de 2010, durante o Conclat (Congresso da Classe Trabalhadora), realizado em Santos, criar uma nova central, a partir da dissolução da Conlutas, em que outros movimentos se agregassem, tais como a Intersindical.

 

O resultado foi um rotundo fracasso, pois, diante da truculência com que o PSTU e seus dirigentes conduziram o processo, a perspectiva pretendida deu lugar a algo que, no mínimo, se mostrou inconcluso e de duvidosa capacidade de aglutinação. Numa ressignificação da fábula do Rei Midas (aquele que transformava tudo em ouro), parece que esses “gênios revolucionários” têm o poder de, onde tocam, produzir desagregação, para ficar num patamar minimamente educado.

 

Naquela oportunidade, o Conclat de Santos, tentava-se, no interior do ANDES-SN, vender a idéia de que a Conlutas não era a CSP-Conlutas e que o processo ainda teria desdobramentos.

 

Todavia, a Diretoria Nacional do ANDES-SN e sua base de sustentação defenderam, no congresso realizado em Uberlândia, a tese de que o ANDES-SN se filiasse à CSP-Conlutas, até porque haveria um plena continuidade entre a Conlutas e a CSP-Conlutas. Algumas delegações, como a da ADUFU-SS, se colocaram contra essa filiação, não por discordarem da articulação do campo classista, mas por razões como:

 

1. A categoria docente não discutiu o tema. Esta lacuna também tem a ver com o já prolongado processo de desmobilização e perda de legitimidade que o sindicato vive junto aos docentes e seria temerário que delegados escolhidos em assembléias esvaziadas e sem que o debate acerca dessa proposta tenha ocorrido pudessem tomar tal decisão.

2. Quem pode assegurar que a articulação do campo classista se expresse, única ou principalmente, nessa organização? Identificar uma coisa a outra é uma afronta à inteligência.

3. O que, de fato, representa, hoje, a CSP-Conlutas? No site da entidade não há referência alguma ao número e especificação das organizações que a integram e, durante o congresso, ninguém soube sequer responder a essa pergunta que vários de nós fizemos nos grupos mistos e pelos corredores. A CSP-Conlutas tem sido caracterizada pela Diretoria Nacional como um “instrumento superior para a organização do conjunto da classe trabalhadora”. Além da evidente arrogância, era de se esperar que números fossem apresentados como prova de que isso vem acontecendo. Ledo engano. Ao invés disso, uma enxurrada de desqualificações (tais como “desinformados”, “inconscientes”, “mentirosos”, “sonolentos”, “tecnicistas”) foi apresentada a quaisquer contestações do que os “donos da verdade e do ANDES” defenderam em suas falas. Houve até quem, diante de nossas intervenções, pedisse que fôssemos expulsos desse sindicato.

 

4. Articular esse campo como se a CSP-Conlutas fosse seu farol significa, por príncípio, desconsiderar que os trabalhadores estão em outras centrais e, em sua maioria, nem mesmo são filiados a sindicatos ou movimentos populares.

 

Mas argumentos são válidos se houver interlocução. No ANDES-SN, não se quer ouvir a base, não se quer saber o que ela pensa. A proposta da ADUFU-SS de que, por um ano, fosse feita uma avaliação criteriosa pelas seções sindicais do que representa essa central para que, aí sim, no próximo Congresso houvesse uma deliberação com base no que rodadas de AGs (quem sabe até mesmo um plebiscito) apontassem foi desqualificada como “basista”. Claro, para o aparelhamento financeiro a que se destina essa filiação, não faz sentido algum submetê-la a uma apreciação cuidadosa por parte da base.

 

Tudo o que está fora dos cânones dessa seita em que se converteu o ANDES-SN foi rejeitado por uma maioria de delegados que, apesar de se considerar legítima, expressa, quando muito, o ínfimo percentual de filiados às seções sindicais que ainda comparecem a eleições sindicais e às AGs. Nada do que poderia aumentar a participação nas eleições (como o voto por processo eletrônico, com senha pessoal e intransferível, a exemplo do que comunidades científicas realizam) é visto como positivo. Tudo é “denunciado” pelos “puros” como armação para que cheguemos às pecaminosas assembleias eletrônicas e ao voto por procuração, coisas que nada têm a ver com eleições da forma proposta pela ADUFU-SS e encampada por algumas ADs, notadamente do nordeste.

 

A delegação da ADUFU-SS, os demais delegados que não se alinham automaticamente à maioria dos congressistas e a salutar prática de se ouvirem as diferenças foram desrespeitadas. A democracia, a capacidade do diálogo e a autonomia do sindicato foram as grandes derrotadas. O ANDES-SN é um moribundo que sobrevive porque sua base o sustenta financeiramente, embora dele se distancie política e academicamente falando.

Para não dizer que nada se salvou nesse evento, a organização local foi muito solícita e cuidadosa (aspecto reconhecido pelos delegados e delegadas) e, finalmente, a atualização do projeto de carreira para as IFES aconteceu, como resultado de mais de ano de luta no setor das federais, processo à frente do qual a ADUFU-SS esteve o tempo todo. O texto final não é exatamente o que saiu de nossas AGs, mas expressa, em larga medida, o que por aqui se produziu de encaminhamentos e propostas.

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E a ADUFU-SS, para onde vai? Esta é a grande questão. De imediato, teremos o desafio de enfrentar, na linha de resistência, o trator que nos tentará empurrar para repassar dinheiro à CSP-Conlutas, local e nacional, para que seus devaneios supostamente revolucionários tenham suporte financeiro. Manter a decisão de não nos filiarmos a ela é um imperativo à autonomia desta seção sindical.

 

Mas outros desafios virão. O que significa continuarmos como seção sindical de uma entidade que se transformou em correia de transmissão de grupelhos que praticamente nada representam junto à sociedade e à categoria docente? Aceitaremos o sectarismo até que sejamos, em relação aos docentes, o mesmo que o PSTU é no plano eleitoral (algo próximo a 1%)?

 

Se – é forçoso reconhecer – as alternativas hoje postas ao ANDES-SN (o Proifes com sua política de conciliação a qualquer custo e a aventura de sindicatos locais, inexpressivos face a um interlocutor que é o Governo Federal) apresentam muitos equívocos, a realidade também nos coloca a enorme dúvida sobre o significado da continuidade na condição de seção sindical do ANDES-SN.

 

Representantes locais desse atrelamento ao PSTU, à CSP-Conlutas e à política que eles veiculam já se movimentam para que a ADUFU-SS volte e até mesmo avance nessa trilha. Resta saber até quando suportaremos financiar práticas, instâncias e eventos que são aparelhistas, caros, ineficientes e descolados da categoria.

 

Em tempo: o 30º Congresso do ANDES-SN, realizado neste ano em Uberlândia, custou (incluindo as passagens aéreas de todos os presentes) cerca de R$ 600.000,00 (seiscentos mil reais) a menos do que o último e bem menos do que todos os anteriores. Claro, procuramos primar pelo respeito aos recursos que são da categoria docente e que não deveriam se prestar a muito do que está em curso, como a montagem de uma produtora de vídeos, sabe-se lá com qual finalidade... Talvez a mesma que permitiu que o Fundo Nacional de Mobilização do ANDES-SN (algo próximo a R$ 1.000.000,00) seja utilizado, em 60%, para “a defesa do sindicato”. Quem decidirá em que isso poderá ser utilizado é, a bem da verdade, a mesma maioria que esmaga a democracia, aparelha o sindicato e se nutre do sectarismo aqui criticados.

 

 i Professor de Ciência Política e Sociologia da UFU.